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AUTO DO LABIRINTO (ou Labirinto do Amor)

 

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OUTUBRO EXPLOSIVO

 

Concentração de concertos de MÚSICA ANTIGA em 4 fins-de-semana

na grande Lisboa e um pouco por todo o país

 

No dia 17 de Outubro o DOLCIMELO apresentou-se no Convento dos Capuchos da Caparica com um programa de música para alaúde e flauta do século XVI. Integrado no ciclo CONSTRUÇÕES DO PATRIMÓNIO, o recital foi concebido como complemento a uma conferência dedicada à figura do diplomata Lourenço Pires de Távora, fundador daquele convento em 1558.

 

No mesmo dia, à mesma hora, tinha lugar um recital de canto e vihuela no XVI ENCONTRO DE MÚSICA ANTIGA DE LOULÉ, com repertório da mesma época, dando lugar no dia seguinte à prestigiadíssima presença de Jordi Savall com Pedro Estevan, além de outros intérpretes e programas ao longo dos quatro fins-de-semana de Outubro.

 

Um dia depois seria apresentado, na 26ª TEMPORADA DE MÚSICA EM S. ROQUE, o programa Música Sacra da Capela Patriarcal, pelo Ensemble Bonne Corde sob a direção de Diana Vinagre, intérprete dedicada ao violoncelo barroco. Na semana seguinte o mesmo festival apresentaria dois memoráveis concertos de música antiga portuguesa: obras de Estêvão Lopes Morago pelo agrupamento portuense Arte Mínima – dirigido pelo flautista Pedro Silva e com músicos provenientes do Curso de Música Antiga da ESMAE [1] – e um dia depois o agrupamento francês Capela Sanctae Crucis, sob a direcção artística do cornetista Tiago Simas Freire – contando com o apoio científico dos professores da UC [2] José Abreu e Paulo Estudante – com um programa inédito de obras seiscentistas provenientes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A este festival, não dedicado à música antiga, é sem dúvida devida uma vénia pela interessante programação que anualmente integra neste âmbito.

 

Uma escassa hora depois de terminado este concerto teria início outro, em frente a Lisboa, com Hugo Sanches, Pedro Couto Soares e Rui Paiva, integrando os SONS DE ALMADA VELHA, ciclo dedicado em exclusivo à música antiga, com a participação de alguns dos músicos e grupos presentes nos festivais lisboetas. Logo de seguida, nessa mesma noite, a TEMPORADA DE MÚSICA DO PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ / CICLO DE OUTONO, prosseguia com Haydn, Mozart e Bomtempo, tendo-se destacado, na semana anterior, a Serenata de João de Sousa Carvalho L’Angelica, sob a direcção do oboísta Pedro Castro.

 

Entre 17 e 26 de Outubro, a poucos quarteirões de distância de S. Roque, decorria também o original festival ROTA DAS ARTES, onde se puderam ouvir obras de Vivaldi, Bach e Mozart, entre outros, bem como polifonia renascentista pelo excelente ensemble vocal francês Les Voiz’Animées, sob a direção do cantor Luc Coadou.

 

Saliente-se ainda os concertos de música antiga incluídos na programação do CONGRESSO INTERNACIONAL DE MUSICOLOGIA HISTÓRICA, entre 9 e 11 de Outubro em Almada, sob o tema "Música de Corte no espaço Ibero Americano, 1750-1800", as famosas JORNADAS INTERNACIONAIS "ESCOLA DE MÚSICA DA SÉ DE ÉVORA" centradas no estudo da polifonia portuguesa, de 3 a 5 de Outubro, com concertos todos os dias, e as JORNADAS MUNDOS E FUNDOS da Universidade de Coimbra, entre 22 e 24, dedicadas aos fundos musicais dos séculos XVI e XVII provenientes do Mosteiro de Santa Cruz, igualmente com concertos públicos diários.

 

Excelente ou a evitar?

 

Posto este sobrecarregadíssimo cenário de cerca de 30 concertos num mês (apresentado de forma muito sucinta e lacunar para obstar a prolixidade), estaremos perante uma extraordinária dinâmica cultural que reconhece na música antiga a vitalidade dificilmente encontrada no panorama artístico nacional, ou pelo contrário esta concentração no tempo denota apenas um acaso, fruto de acções autocentradas e dissociadas do contexto nacional, criando o efeito perverso de dificultar a divulgação e minar a afluência de público suficiente para tanta oferta?

 

Se é absolutamente louvável o incremento de iniciativas na área da música antiga, e notável a articulação entre investigação musicológica e performance artística, na verdade é doloroso assistir a espectáculos de grande qualidade com salas vazias ou pouco preenchidas, desvalorizando o imenso trabalho profissional que foi despendido pelos intérpretes até chegar àquele momento de partilha e fruição musical.

 

Enquanto o público da música antiga for tão circunscrito – e não haja ilusões que nunca será o mesmo que para a música clássica em geral – não seria possível coordenar a programação de modo a harmonizar a oferta com a disponibilidade do público? Ganhavam os festivais/ciclos e os organizadores, uma vez que passavam a ter uma melhor divulgação e destaque, valorizando a singularidade da sua programação; ganhavam os músicos, que passavam certamente a ter salas cheias de pessoas disponíveis e interessadas; ganhava o público, que passava a ter acesso a concertos de música antiga de forma mais ou menos regular, ao longo do ano, sem ter que andar a correr de concerto em concerto ou a fazer escolhas difíceis por não conseguir ir a tudo o que está a acontecer em simultâneo.

 

Entre ciclos, festivais e temporadas – e, de modo mais alargado, se incluirmos também eventos académicos e científicos dedicados à música antiga – não haverá maneira de rentabilizar tanto potencial criativo de forma mais reprodutiva e sustentável? Certamente que se poderá contar com os músicos, sempre prontos e disponíveis para novos desafios e projectos artísticos. Ainda que por vezes contra ventos e marés, navegar é preciso. Planear e coordenar também!

 

Isabel Monteiro

IL DOLCIMELO

29-X-2014

 

[1] Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo

[2] Universidade de Coimbra

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